Por Rosario Ares, responsável global por Raiva, Divisão de Pets, Biogénesis Bagó.
Há algo paradoxal na raiva: ela é uma das doenças mais letais que conhecemos e, ao mesmo tempo, uma das mais evitáveis. Uma vez que os sintomas aparecem, a doença é fatal. No entanto, contamos com uma ferramenta concreta para evitá-la: a vacinação.
Então, se sabemos como preveni-la, por que a raiva continua sendo um desafio de saúde pública em diferentes partes do mundo? A resposta não está apenas na ciência. Está no acesso, na educação, nas características epidemiológicas de cada território e na nossa capacidade de transformar uma ferramenta disponível em prevenção efetiva.
A doença está presente em mais de 150 países e regiões, e a Organização Mundial da Saúde confirma que mais de 95% dos casos de raiva humana são transmitidos por cães. Além disso, quatro em cada dez vítimas são crianças. Nesse contexto, o desafio já não é apenas dispor de uma vacina. É fazer com que a prevenção chegue aonde ela é mais necessária.
Uma mesma doença, diferentes realidades
Os dados são contundentes, mas falar de raiva em âmbito global implica reconhecer que não existe uma única realidade epidemiológica. A América Latina avançou significativamente no controle da raiva canina, e essa é uma conquista que devemos valorizar, mas isso não significa que a doença tenha desaparecido. O vírus continua circulando, e os reservatórios animais seguem representando uma ameaça. Na Argentina, por exemplo, os morcegos constituem um reservatório relevante e podem representar uma via de exposição para os animais de companhia.
Entretanto, em diferentes regiões da Ásia e da África, a situação é ainda mais crítica. As pessoas continuam morrendo após mordidas de cães, e o acesso às ferramentas de prevenção segue sendo um desafio.
Esses cenários não podem ser abordados da mesma forma. Cada estratégia deve considerar a epidemiologia local, as características das populações animais, o acesso aos serviços veterinários e de saúde, a infraestrutura disponível e as condições logísticas de cada mercado.
A prevenção como denominador comum
Quando falamos de raiva, a prevenção efetiva acontece muito antes: quando um cão ou um gato recebe a vacina, quando um médico-veterinário recomenda manter o calendário sanitário em dia, quando um tutor entende que vacinar seu animal também é uma forma de proteger as pessoas com quem convive.
Ela também acontece quando um governo consegue implementar campanhas de vacinação, quando há sistemas de vigilância adequados e quando as vacinas podem chegar ao destino e ser conservadas nas condições necessárias. Por isso, falar de prevenção significa falar de um sistema.
Nesse sentido, a raiva é um dos exemplos mais claros de por que precisamos pensar a saúde animal e a saúde humana de forma integrada. Quando vacinamos um cão, protegemos esse animal e, ao mesmo tempo, reduzimos uma possível via de transmissão para as pessoas.
Quando governos, médicos-veterinários, organizações de saúde e a indústria coordenam esforços para ampliar a cobertura vacinal, o conceito de Saúde Única deixa de ser uma declaração e se transforma em uma prática concreta.
A Biogénesis Bagó possui experiência consolidada na prevenção da raiva na América Latina. Desde 2012, participa do Fundo Rotativo da Organização Pan-Americana da Saúde e, por meio desse mecanismo, já forneceu mais de 138 milhões de doses a mais de 14 países. A companhia também conta com capacidade produtiva anual superior a 50 milhões de doses de vacina antirrábica.
Mas essa experiência também levanta uma questão para o futuro: como podemos fazer com que as soluções estejam cada vez mais adequadas às necessidades de cada território? O desafio exige mudar a pergunta. Já não basta nos perguntarmos qual produto podemos oferecer; precisamos nos perguntar do que cada território necessita para que a prevenção realmente funcione.
Na companhia, entendemos que expandir não significa simplesmente levar uma solução de um mercado para outro. Significa ouvir. Compreender a epidemiologia local, conhecer as necessidades dos governos e identificar as barreiras de acesso. Entender as condições regulatórias e logísticas e, sobretudo, construir parcerias com organizações locais que permitam desenvolver soluções sustentáveis no longo prazo.
Na saúde animal, crescer não deveria significar apenas chegar a mais mercados. Deveria significar sermos capazes de atender a mais necessidades. Porque a pergunta que deveríamos fazer não é apenas se podemos prevenir a raiva — sabemos que podemos —, mas até onde conseguimos levar essa prevenção.